[Conto da Noruega] Preocupação e Sofrimento

Nesta história norueguesa, é a princesa que tem de salvar o príncipe. Depois de um desenrolar de acontecimentos que tem semelhanças com o mito de Cupido e Psiquê, nossa princesa parte numa missão impossível: a de salvar seu amor enfeitiçado, impedindo que ele seja forçado a casar com outra.

Tinha um rei três filhas imensamente belas, as quais muito amava e satisfazia em todos os seus desejos. Viviam todos muito felizes no enorme castelo maravilhoso que se erguia no meio dum jardim tão lindo como nunca se vira.

Eis, porém, que um dia, invade o reino um rei vizinho. Era a guerra, a tristeza.

Antes de partir com seu exército, ao se despedir das filhas, perguntou o rei o que desejavam elas quando retornasse.

— Quero um anel que tenha a qualidade de me conservar a vida enquanto estiver em meu dedo, pediu a mais velha.

— Eu, desejou a filha do meio, quero uma coroa que me traga só felicidade, enquanto estiver em meu poder.

— E tu? perguntou o rei à filha caçula. Que desejas?

— Quero preocupação e sofrimento!

— Preocupação e sofrimento?

O rei estranho aquele pedido da filha, mas como não as contrariava em nada, deixou para pensar no assunto mais tarde, uma vez que no momento estava assoberbado com a guerra.

E partiu, guerreou o inimigo, pelejou valente e desassombradamente, derrotando o exército adversário.

Pronto para retornar ao reino, saiu à cata dos presentes para as filhas.

Depois de muito custo, conseguiu dum mago o Anel da Vida e a Coroa da Felicidade.

O presente da caçula era impossível. Como obter Preocupação e Sofrimento?

E de todos aqueles que indagava, recebia apenas uma resposta:

— Para que desejas sofrimento e preocupação? Não vês que a guerra terminou e só existe agora, por toda a parte, só e só, alegria e despreocupação?

Assim, levando os presentes das duas filhas mais velhas, retornou com seu exército vitorioso.

Ao atravessar uma floresta, já em seu reino, viu numa árvore um lindo e irrequieto esquilo que gesticulava como se o chamasse. Intrigado, foi até a árvore e pôs-se a dizer ao animalzinho palavras carinhosas.

Nisto, o esquilo falou:

— Leva-me contigo, ó grande rei poderoso!

O rei, assustado, recuou, de mão no punho da espada.

— Então… então falas? perguntou, incrédulo.

— Sim, respondeu, a saracotear no galho em que estava, o esquilo.

— E como te chamas?

— Chamo-me Sofrimento e Preocupação.

— Tu? Sofrimento e Preocupação? Justamente o que desejava minha filha mais moça? Vem, vem comigo!

O esquilo, num agilíssimo salto, caiu-lhe nos braços e lá se foi para o castelo.

Festiva, muito festiva, foi a chegada do rei vitorioso. Abraçou, saudoso, as princesas e lhes deu os presentes encomendados.

Satisfeitas todas, mais ainda ficou a jovem que ganhara o esquilo Sofrimento e Preocupação.

— Oh! exclamou. Que lindo! E fala! Vede, irmãs, que falante que é, vede! Vai ficar em meu quarto. Vai viver juntinho de mim.

No quarto, o esquilo não tinha pouso: pulava para cá, pulava para lá, sem parar um instante sequer.

E uma coisa maravilhosa se deu: assim que a noite caiu, transformou-se o irrequieto bichinho num alto jovem.

A princesa ficou estupefata. Quem era? Que significava tão assombrosa transformação?

Ele, sorrindo tristemente, contou:

— Fui encantado pela bruxa giganta, porque com ela não me quis casar. É imensamente linda, mas imensamente má.

— Mais linda do que eu? perguntou a princesa, já apaixonada pelo jovem encantado.

Ele sorriu, dessa vez alegremente, e observou:

— Não, não! Tu és mais linda, muito mais linda. Tua bondade e tua candura fazem-te muito, muito linda.

— Quero casar-me contigo! afoitou-se ela.

— Não sei, não sei, tornou ele, novamente melancólico.

— Não gostas de mim? perguntou a princesa, melindrada.

— Não, pelo contrário. Gosto muito de ti. Não me referia a isto, e sim ao meu estado. Casarias com quem de dia fosse esquilo e só à noite homem?

— Sim.

Casaram-se uma noite, secretamente, com a cumplicidade e ajuda duma aia de confiança.

Na noite do casamento, disse-lhe o jovem:

— Vou pedir-te encarecidamente que nunca acendas luz nenhuma na minha presença.

A jovem princesa entristeceu-se com aquilo, pois via-o sempre na penumbra do quarto. Sabia que era belo, mas nunca o vira à luz. Resignou-se porém, acatando-lhe o pedido.

Uma noite, contudo, não resistiu à tentação. Levantou-se enquanto ele dormia, acendeu uma vela e veio contemplá-lo. E, não resistindo, beijou-o.

Nisto, três pingos de cera da vela caíram-lhe no peito. Acordando, abriu os olhos.

— Uma vela! exclamou ele, sentando-se na cama. Luz! Por que fizeste isto? desesperou-se. Se tivesses esperado mais três noites, findava-se o encantamento! Devo ir! Devo partir! Chama-me a bruxa giganta! Casar-me-ei com ela! Não resisto mais! Preciso ir!

— Irei contigo! chorava a princesa, desesperada. Irei contigo!

— Não! Não conseguirás nunca! É longe, terrivelmente longe, e não aguentarás! Nunca poderás descansar. Não poderás sequer sentar-te um instantezinho!

— Por que?

— Porque se o fizeres, tu mesma te transformarás nalguma coisa e nunca, nunca mais serás a mesma. Não! Fica! Mas eu devo partir. Ela me chama! Quem poderia resistir ao chamado da bruxa giganta? Adeus, meu amor, adeus! Nunca mais, nunca, nos veremos!

Como se fora arrastado por uma forte mão invisível, sumiu-se o jovem.

A princesa, chorando e se lastimando, arrependeu-se amarga mas tardiamente do que fizera.

Contou então à aia que a auxiliara o que havia acontecido e a resolução de ir ao seu encontro.

— Vem comigo! Ajuda-me!

Assim, dois dias depois, foram elas em busca do jovem que a bruxa giganta atraíra. Levavam um corte de brim, um de linho e outro de seda para presentear alguma fada que lhes quisesse interromper a procura.

E andaram, andaram, até o cair da noite. Cansadas, treparam numa árvore, mas ficaram de pé nos galhos, cada uma amparando a outra, para não caírem, uma vez que, se se sentassem, tudo redundaria em nada, transformando-se ainda, ambas em alguma coisa e para sempre.

Logo muitos lobos vorazes e ferozes surgiram debaixo da árvore, apavorando-as. Mas com o romper do dia, foram-se.

Desceram então mais alquebradas ainda, e continuaram a caminhada. A princesa estava tão cansada que a aia precisava ampará-la a todo o instante.

A noite caiu e as surpreendeu numa imensa floresta escura. Exaustas, subiram a uma árvore e lá ficaram como na noite anterior: de pé, amparando-se uma na outra. Desta vez, um bando de ursos farejou a árvore, assustando-as terrivelmente. Com o despertar da aurora, assim como os lobos se foram, foram-se os ursos também.

Desceram e puseram-se à jornada. A floresta pela qual avançavam parecia infinda.

Assim, à noite novamente treparam numa alta árvore, mais mortas do que vivas, tudo fazendo para não sentarem.

Vários e terríveis leões as rondaram a noite toda, abalando a terra com urros tremendos. Como os lobos e os ursos porém, ao clarear do dia desapareceram.

As duas tinham os pés sangrando, estavam cansadíssimas, sem dormir um momento sequer, sem se sentarem um único instantezinho que fosse, medrosas que estavam de ver seus esforços desmoronados e, mais ainda, de se verem transformadas, e para sempre, nalguma coisa.

Neste dia, à tarde, chegaram a uma vasta casa na floresta infinda. Bateram.

— Quem é? — abriu a porta uma giganta feia como quê.

Estavam, a princesa e a aia, tão fracas, tão exaustas, que mal podiam falar.

— É uma princesa e sua aia — sussurrou a jovem. — Estou à procura do moço-esquilo.

— Então — tornou a giganta — é melhor voltar, pois dentro de três dias se casará com a bruxa giganta. Não haverá tempo de ires até lá.

Entristeceu-se muito a princesa, e mais fraca se sentiu.

— Vamos tentar — disse à mulher. — Dá-nos pousada por esta noite, sim?

— Não posso — respondeu a giganta. — Meu marido, ao chegar, comer-vos-ia.

— Por favor! — suplicou a princesa quase a chorar. — Dou-te este corte de brim.

A giganta arreganhou a imensa boca num imenso sorriso.

— Oh! Que delicada que és! Um corte de brim? Estou casada há cem anos e nunca me presentearam com coisa mais linda! Entra, entra! Esconder-vos-ei nos último quarto e passareis despercebidas.

Entraram, cambaleando, encostando-se pelas paredes, apoiando-se nos móveis. A princesa, de cansaço, quase chorava.

Depois que a dona da casa lhes serviu uma forte ceia, sentiram-se mais animadas.

Levadas ao quarto dos fundos, encostaram-se à parede, uma como sempre escorando a outra; e de pé dormiram.

Mal clareara o dia, chegou o gigante a berrar:

— Gente em casa, há gente em casa! Onde está?

— Cala-te, homem! — bradou a mulher. — São duas gentis moças que aqui estão debaixo de minha proteção.

— Gentis? Gentis, por que?

— Sim, gentis! Que me deste tu, em cem anos de casados? Presentearam-me elas com um belíssimo corte de brim. Ei-lo, na cadeira.

O gigante tornou-se amável, honroso, querendo ver aquelas que tão belamente presentearam sua esposa.

— Que querem elas? — perguntou à mulher.

— Estão à procura do moço-esquilo. Em retribuição do que me fizeram tu vais emprestar-lhes teu gibão de sete milhas.

— Sim, sim — concordou ele. — Com muito gosto!

Mais animadas, enfiaram-se as duas gibão a dentro.

— Daqui a sete milhas — explicou o gigante à princesa — manda-me de volta o gibão. Basta que digas: “Onde foi vestido de manhã, deve estar pendurado à noite.” E agora, felicidades!

— Obrigada! — respondeu a princesa, sensibilizada.

O gigante recitou:

— Avante, gibão, sobre pinheiros e salgueiros, sobre montanhas e vales, até o próximo vizinho!

As duas moças sentiram uma tonteira esquisita ao serem arrebatadas pelo ar. Quando deram acordo de si estavam num casarão no meio duma floresta.

Então, antes de se aproximarem, desvestiram o gibão de sete milhas e a princesa recitou a fórmula mágica:

— Onde foi vestido de manhã, deve estar pendurado à noite!

Depois foram até o casarão e bateram à porta.

— Quem bate? — perguntaram lá dentro.

— Aqui estão a princesa e sua aia — respondeu a jovem. — Estamos à procura do moço-esquilo.

Uma segunda giganta abriu a porta:

— E que desejais?

— Pousada — pediu a princesa. — Pousada para mim e minha aia.

— Impossível — tornou a giganta. — Meu marido, ao chegar, comer-vos-ia. Além do mais, casa-se depois de amanhã o moço-esquilo com a bruxa giganta e lá não chegarias a tempo.

— Vou tentar — insistiu a princesa. — Toma, é um presente para ti.

Estendeu à mulher o corte de linho.

A giganta desmanchou-se em amabilidades.

— Oh! Para mim? Um corte de linho? Oh! Estou casada há duzentos anos e nunca recebi tão maravilhoso presente! Entrai, vinde comer alguma coisa. Esconder-vos-ei no quarto dos fundos, de modo que meu marido não saberá de nada. Vinde! Não façais cerimônia, vinde!

As duas moças entraram e logo mais cearam, sempre de pé. Depois, recolheram-se.

Quando o gigante chegou, disse à mulher que sentia estranhos em casa e queria comê-los. A giganta, da mesma forma que a outra, donde tinham as duas vindo, fez ver ao marido quão gentis eram elas, presenteando-a com um belo corte de linho, assim amansando-o.

As moças, sempre se amparando mutuamente, dormiram como na noite anterior de pé, encostadas à parede.

No dia seguinte, apresentou-as a giganta ao marido.

— Fostes gentis com minha esposa — falou o gigante. — Em paga, emprestar-vos-ei meu gibão de sete milhas. Talvez assim, princesa, chegareis ao vosso Sofrimento e Preocupação.

O gigante foi até o quarto e voltou com o grande gibão.

— Manda-mo de volta quando chegares ao próximo vizinho — pediu à princesa. — Basta que digas: “Onde foi vestido de manhã, deve estar pendurado à noite.”

Meteram-se as duas, princesa e aia, no vasto gibão, e recitaram:

— Avante, gibão, sobre pinheiros e salgueiros, sobre montanhas e vales, até o próximo vizinho!

Sentiram aquela mesma tonteira que as enevoara da primeira vez e quando voltaram a si, estavam diante dum terceiro casarão naquela floresta sem fim.

Aproximaram-se, tendo antes mandado de volta o mágico gibão, e bateram:

— Quem bate? — perguntou uma voz lá dentro.

— A princesa e sua aia, respondeu a criada.

Abriu-se a porta e uma giganta, maior que as duas anteriores, apareceu:

— Que desejais?

— Pousada! Estamos cansadíssimas, temos os pés escalavrados.

— A que vindes?

— Em busca do moço-esquilo.

A giganta soltou uma gargalhada:

— É amanhã o casamento da bruxa giganta. Não chegarás a tempo.

— Vamos tentar, já que até aqui viemos!

— Mas aqui não podeis ficar! Meu marido, em chegando, comer-vos-ia.

— Oh! Por favor! — suplicou a princesa. — Estamos terrivelmente cansadas! Eis aqui um presente para ti.

Tomou o corte de seda e entregou-o à mulher giganta.

— Um presente? Para mim? Oh! Que belo que é! Seda, seda pura! Que maravilha! Estou casada há trezentos anos e jamais me presentearam tão lindamente. Entrai. Vinde comer alguma coisa. Como estais abatidas! Vinde, vinde comigo.

E assim, do mesmo modo, cearam de pé no quarto dos fundos, dormiram e, no dia seguinte, conseguiram emprestado do gigante, pelas amabilidades que tiveram com sua esposa, o seu gibão de sete milhas.

— Avante gibão, por pinheiros e salgueiros, por vales e montanhas, para o moço-esquilo!

Chegaram a uma floresta negra. Tudo, mas tudo mesmo, era da cor de pixe: as árvores, a selva toda, o casarão da bruxa giganta.

Numa exaustão tremenda, pois não descansavam havia vários dias, aproximaram-se da porta e bateram.

— Quem é? — perguntaram de dentro.

— Duas jovens exaustas e famintas — respondeu a princesa, quase a chorar de cansaço, nervosismo e fome.

— Que desejais? — abriu a porta uma gigante maior ainda do que as três anteriores, mas muito formosa.

— Queremos um pouco d’água e algum alimento. Não incomodaremos. Ficaremos no quarto dos fundos e passaremos despercebidas de teu marido.

A gigantesca mulher teve uma gargalhada sonora:

— Marido? Oh! Então não sabeis? Não tenho ainda marido. Caso-me hoje à meia-noite.

E, rindo-se ainda, ofereceu-lhes a casa. Dentro, reinava a mais completa desordem. Tudo era feio, imundo, e mal cheiroso.

A princesa olhava a giganta, alucinada. Tinha então diante dos olhos a rival?

A giganta foi até um armário e trouxe um grande naco de pão, cheio de baratas.

— Servi-vos à vontade!

As duas, a princesa e a aia, tiveram uma reviravolta no estômago. Credo! Que coisa mais nojenta!

A giganta, que havia saído, regressou com o leite dentro do cocho dos porcos.

— Bebei à vontade, jovens! — disse às duas. E ficou a observá-las.

As moças, careteando, não tiveram outro remédio senão comer e beber. Afastando as baratas, procuravam algum pedaço de pão que estivesse um pouco mais limpo.

E assim, probrezinhas! sabe Deus como, engoliram o que puderam, empurrando com o terrível leito meio esverdeado e de cheiro horrível.

Nisto surgiu dum quarto um velho alquebrado, vagaroso, os olhos vermelhos, muito trêmulo.

A princesa sentiu-se atraída por ele, achegou-se-lhe, tomou-lhe das mãos e beijou-as.

No mesmo instando, transformou-se ele no jovem que secretamente havia desposado.

— Baah! — soltou a bruxa giganta um grito pavoroso. — Que fizeste com meu noivo?

Correu para a princesa, de mãos crispadas como garras horrendas.

— Vais morrer, vais morrer!

Mas tudo se transformara com a transformação mesma do velho no belíssimo jovem. O casarão era um palácio maravilhoso, todo de ouro. A floresta negra, de pixe, fizera-se linda como se fora a floresta dum sonho lindo. Pássaros cantavam na fronde das árvores, de folhas de esmeraldas. Rodeando o castelo, quem jamais vira, em todos os tempos, jardim mais fabuloso?

O avanço da bruxa ficara somente naquele feio berro e naquele terrível crispar de mãos. Era agora uma horrenda estátua de pedra, a única feiura que desmanchava a lindeza de tudo o mais.

Nos braços do marido, a princesa chorava.

Chorava? Sim, de alegria, de pura alegria.

— Oh! Doce amor meu! Que saudade! Que terrível saudade!

E assim, por muito tempo, um ao outro aconchegados, não se cansavam e nem viam o tempo passar.

A felicidade jamais os abandonou, pelo resto da vida. Nunca mais sofrimento ou preocupação viveu entre os dois. Nunca.

*

Extraído da Enciclopédia Universal da Fábula, vol. XVII. Tradução de Jannart Moutinho Ribeiro.
Imagens: Wikimedia Commons.

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