[Artigo] O mundo está nas garras da incerteza. Enquanto isso, onde está Deus?

Era dezembro de 1944, cinco meses antes que o Terceiro Reich se rendesse, e ninguém sabia como e quando a Segunda Guerra Mundial acabaria.

Na França, o V e VI Exércitos Panzer estavam atacando o heroico mas enfraquecido VIII Corpo do Primeiro Exército americano. O Terceiro Exército, comandado pelo general Patton, que deveria vir em seu socorro, estava detido em florestas cheias de chuva e névoa; e nenhum avião conseguia trazer ajuda aérea por causa do mau tempo que, segundo as previsões, duraria semanas.

O que Patton fez?

O general telefonou para James O’Neill, seu capelão chefe, e perguntou: “Você tem uma oração pedindo bom tempo?”

Como O’Neill escreveu uma oração ad hoc e levou-a ao general; como este lhe perguntou o quanto os soldados estavam rezando, e falou sobre a importância da oração para conseguir a vitória; como Patton fez distribuir cópias da oração para todos os homens em seu exército — esses são fatos nos quais não precisamos nos deter agora. O que quero sublinhar é o seguinte: um general estava numa situação de incerteza e disse: “Temos de rezar a respeito.”

Qual a probabilidade de isto acontecer hoje?

Como aqueles que viveram durante a Segunda Guerra Mundial, hoje estamos enfrentando uma incerteza sem precedentes. Apesar de todos os modelos e previsões, conforme a COVID-19 espalha morte e caos econômico no mundo, nós simplesmente não temos como saber o que vai acontecer — da mesma forma que os britânicos não tinham como saber que a blitz seria seguida não por uma invasão nazista, mas por mais quatro anos de guerra; e da mesma forma como as Forças Aliadas não tinham como saber que o Dia D iniciaria uma campanha vitoriosa, mas que a vitória ainda levaria um longo ano para chegar.

Neste momento, tudo o que sabemos com certeza é que muita gente está morrendo de uma nova doença; morrendo sozinha em hospitais sobrecarregados, e sendo enterrada sem que os familiares possam lhes dizer um último adeus. Sabemos que a economia mundial está despencando em uma recessão da qual pode levar muito tempo para se recuperar, e que nossos salários foram cortados ou desapareceram por inteiro. Sabemos que bilhões de pessoas estão vivendo em isolamento social, e sabemos sem sombra de dúvida que 2020 não está indo conforme o planejado — nem para nós, nem para ninguém mais no mundo. Estamos todos sofrendo o impacto de uma crise jamais vista.

Então, o que os líderes do passado disseram nos seus momentos de crise jamais vista?

Churchill disse que os britânicos lutariam com toda a força que Deus pudesse dar-lhes — e assegurou ao seu povo que, na hora em que Deus quisesse, o Novo Mundo enviaria ajuda. Eisenhower, na véspera do Dia D, convidou toda a Força Expedicionária Aliada a “implorar a bênção de Deus Todo-poderoso sobre esta grande e nobre empresa”. Patton conversou sobre a oração com seu capelão, e fez distribuir entre seus homens 250.000 cópias de uma oração pedindo bom tempo.  

É isso que os líderes disseram então. E hoje, em 2020? Estamos nas garras de uma incerteza que cobre o mundo. Onde, em seus discursos, está Deus?

O que mudou em 80 anos, que agora nenhum líder mundial fala de Deus, nenhum chefe de estado menciona a ajuda do céu? Por que nossas celebridades não nos urgem a rezar?

O fato é que temos de admitir o seguinte: os representantes políticos e as celebridades endeusadas são o espelho dos seus seguidores; e se nossos líderes esquecem da Divindade, é porque nós esquecemos primeiro. Ou talvez nunca tenhamos sabido que existisse.

Diferente das gerações passadas, nós não aceitamos o sobrenatural como real, e por isso não conseguimos ver que se a Eternidade é nossa origem e nosso destino final, uma vida que a deixa de fora está condenada por escolha própria. Quando a desgraça bate à porta, nós não conseguimos perceber, como nossos avós percebiam, que querer que o mundo funcione direito sem levar em conta o sobrenatural é o mesmo que querer estar bem sem exercício e comida saudável.

Talvez isso tenha acontecido porque na maior parte do mundo ocidental minha geração, e aquelas mais jovens do que nós, não foram atingidas pelas grandes destruidoras de ilusões: a guerra, a fome, a doença. E assim, nos tornamos um mundo de gente bem alimentada e complacente, gente para quem a beatitude é um celular carregado, conexão rápida, e alguns milhares de likes nas mídias sociais. Gente que não sonha com nada melhor do que trabalhar e ganhar dinheiro e assistir nossa série de Netflix no fim do dia. De preferência, em HD.

Claro que nem todos nos contentamos com isso. Muitos de nós também querem contribuir para uma obra social, viajar, descobrir novas culturas e criar laços profundos com outros seres humanos. Mas do ponto de vista da Eternidade, isso tudo é tão transiente quanto assistir um story no Instagram.

Sei que estou sendo injusta com muita gente; com aqueles que têm sim ideais elevados, e que vivem cada dia de acordo com eles. Mas não é dessas pessoas que estou falando; estou falando de nós, nós que não temos ideal mais elevado do que “deixar o mundo melhor do que o encontramos” e que, ao fazer isso, esquecemos porque é que vamos deixá-lo, e para onde iremos.

Para um número enorme de nós, a oração comum neste momento seria “por favor, só quero que as coisas voltem ao normal” — seja lá o que for que “normal” significa. Mas será que isso seria sequer bom para nós? Se existimos para a Eternidade, ficar chafurdando na transiência é de fato o caminho a seguir?

Ainda assim, mesmo uma oração pedindo para voltar para a nossa insossa normalidade já é melhor do que oração nenhuma. O que importa agora não é tanto o que pedimos, mas que nos demos conta de que devemos pedir, e a quem devemos pedir. E também, que a quem pede será dado.

Talvez não nos seja dado exatamente aquilo que pedimos, mas no mínimo, ser-nos-á dado algo infinitamente mais precioso: uma visão mais verdadeira da nossa situação cósmica, uma situação em que não somos o centro autossuficiente do Universo, mas almas criadas, agraciadas com direitos e deveres e com o potencial de ser “horrores imortais, ou eternos esplendores”.

Churchill escreveu a respeito de um momento em sua ateia juventude quando esteve em perigo de morte:

“Sem a assistência daquele Poder Superior que interfere com mais frequência do que gostamos de admitir na eterna sequência de causas e efeitos, eu nunca teria conseguido o que queria. Rezei longa e fervorosamente pedindo ajuda e orientação.”

E Patton, em Dezembro de 1944, disse a O’Neill:

“Há três maneiras do homem conseguir o que quer: planejando, agindo, e rezando. Deus tem sua parte, ou margem, em tudo. É aí que entra a oração. Orar é como se ligar numa corrente elétrica cuja fonte está no céu.”

Depois da conversa, além da oração pedindo bom tempo distribuída aos soldados, O’Neill enviou uma carta aos capelães de todas as fés representadas no Terceiro Exército:

“Aqueles que oram fazem mais pelo mundo do que aqueles que lutam; e se o mundo vai de mal a pior, é porque há mais batalhas do que orações. (…) Urjam todos os seus homens a rezar, não só na igreja, mas em toda a parte. Rezem enquanto dirigem. Rezem enquanto lutam. Rezem sozinhos. Rezem com outros. Rezem de noite e rezem de dia. Rezem para que parem estas chuvas imoderadas, para que venha bom tempo para a batalha. Rezem pela derrota de nosso cruel inimigo, cujo pendão é a injustiça e cujo bem é a opressão. Rezem pela vitória. Rezem por nosso Exército, e rezem pela Paz.”

Seis dias mais tarde, contrariando todas as previsões, o tempo abriu. Os aviões vieram. Patton avançou. E todos sabemos como terminou a guerra.

Não sabemos como terminará a crise atual. Então, precisamos rezar. Sim, precisamos manter distância social, lavar as mãos, ficar em casa. Mas enquanto fazemos isso, não esqueçamos aquela Realidade invisível que nenhum microscópio consegue enxergar, uma Divindade misericordiosa que anseia por nos ajudar e salvar, desde que lhe permitamos fazê-lo.

Se lembrarmos dela e rezarmos, estaremos ajudando mais do que imaginamos. Estaremos ajudando a nós mesmos. Estaremos ajudando os que tomam as grandes decisões. Estaremos ajudando médicos e enfermeiros, os enfermos e os moribundos, e aqueles que estão arriscando as vidas a nosso serviço. Porque nossas orações são tão úteis quando álcool gel, máscaras e respiradores; elas são necessárias nas salas dos líderes, nas casas, nos quartos dos doentes e nos hospitais.

A humanidade está sem ar, arfando por orações — as nossas orações. Ela precisa delas desesperadamente, e precisa delas já.

A versão original inglesa deste artigo foi publicada no site Medium.com.

Foto: Stella Becker

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