[Conto da Europa] O Grande Pai

Esta semana deixamos as fábulas de Esopo e voltamos aos contos europeus, com uma tocante história da Romênia que nos fala da divina Providência. Ao final do conto, como de hábito, há uma lista de novas palavras e expressões com as quais podemos enriquecer nosso vocabulário.

Conto da Europa sobre órfãos e um homem rico.

Era um inverno terrível. As feras haviam-se recolhido a seus antros; os homens tinham-se abrigado em suas casas onde os fogões ardiam confortavelmente.

Mas havia uma cabana, a da pobre viúva, em que não ardia o fogo, não havia pão: os pobres filhos, sete crianças famintas e regeladas choravam no escuro, reclamando um pouco de alimento e de calor. A mãe, que não sabia a que meios recorrer para satisfazê-los, ficou doente de desespero. Atacou-a uma febre alta e teve que ir para a cama.

Deus ordenou a seu anjo que fosse buscar a alma da mulher e a trouxesse ao Paraíso. O anjo chegou à cabana, viu a moribunda e sete crianças, todas chorando ao redor do enxergão. Não teve coragem de tomar a alma da mulher e voltou sozinho ao palácio celeste.

— Não trouxeste a alma que te recomendei! — admoestou o Criador.

— Perdoa-me a desobediência, Senhor. Mas se eu te tivesse contentado, muitas criaturinhas inocentes iriam ficar sem apoio, ao inteiro desamparo.

O Senhor conduziu o anjo à beira do oceano. Mergulhou na água sua espada luminosa e suspendeu-a dois segundos depois. Uma pedrinha havia subido na ponta. O Senhor agarrou a pedrinha, quebrou-a em dois pedaços e mostrou um pequenino verme que estava dentro.

— Este verme, bem o vês, estava sozinho. Vivia no fundo do mar, fechado dentro de uma pedra. E apesar de tudo, vivia bem. Por que vivia bem o pequenino verme?

— Graças à tua proteção, Pai.

— Exato. Eu sou o Pai de todas as criaturas. Como poderei eu, que penso amorosamente no verme, desinteressar-me dos pequeninos órfãos? Vai, pois, vai buscar a alma da mulher como te ordenei. A pobre já sofreu bastante e merece a alegria eterna que lhe está reservada.

O anjo voltou à cabana da pobre viúva, tomou a alma da mulher e a levou ao Paraíso.

Fazia frio, um frio terrível. As feras estavam recolhidas em seus covis, os homens não abandonavam as lareiras onde ardia o fogo confortável. Mas na cabana não havia pão, nem luz, nem calor. Os meninos choravam, invocando a mãe que se fora.

Um riquíssimo comerciante que se atrasara numa viagem de negócios e passara por ali, ouviu os soluços e os gemidos. Mandou parar o carro, entrou na cabana e viu os sete órfãos que tinham fome e frio. Confortou-os com palavras afetuosas, fê-los subir no carro e levou-os para a sua mansão espaçosa, quente e iluminada, onde havia em abundância pão alvo e leite. Ali iniciaram uma existência tranquila, segura, farta.

Deus, o Grande Pai, não esquece nenhum dos filhos.

Extraído da Enciclopédia Universal da Fábula, vol. XXV. Editora das Américas. Tradução de Hilário Correia. Imagem: pickpic.com

*

Para tomarmos nota:

antro = toca, furna

enxergão = espécie de almofadão grosseiro cheio de palha

admoestou = censurou, reprovou

ficar ao desamparo = ficar abandonado e sem sustento

covil = antro, toca

bem o vês = como você está vendo

ardia o fogo = em vez de “o fogo queimava”

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Gostou de ampliar seu vocabulário com este conto tradicional da Romênia? Então você gostará também de ler esta lenda romena sobre o povo cigano.

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