[Conto de Natal] Olhos de Estrela

História de Natal tradicional da Lapônia

Já que o Natal está chegando, esta semana nossa história é uma história natalina. Trata-se de um conto tradicional da Lapônia, região do extremo norte da Europa que se estende nos territórios da Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia.

Uma história antiga que fala da inocência da infância, do poder que há na pureza de uma criança.

Esta tradução é em um excelente português, e não faltam novas palavras e imagens para aumentarmos o nosso vocabulário e melhorarmos nosso português. No final vocês encontrarão uma lista de dez delas. Mas convido-os a fazerem suas próprias listas, com suas palavras e imagens preferidas.

E vamos à nossa história de Natal… (Quem quiser baixar o pdf. clique aqui.)

*

Olhos de Estrela

Um lapão atravessava a planície nevada e deserta, em seu trenó puxado por uma rena. Seguia-o sua mulher, conduzindo também seu pequeno trenó, porque as renas não podiam carregar mais de uma pessoa.

A mulher levava nos braços a filhinha, bem agasalhada com uma grossa pele.

Mas era difícil para ela segurar a criança e conduzir ao mesmo tempo o trenó, porque a criança lhe estorvava os movimentos.

Era véspera de Natal. A neve brilhava aos raios amortecidos da aurora boreal, e as estrelas refulgiam no céu, em todo o seu esplendor.

Quando, tendo chegado ao alto da montanha, começaram a descer para o vale, encontraram-se com os lobos. Era uma grande alcateia, de quarenta ou cinquenta animais, pois eles sempre se juntam para atacar as renas. Os lobos uivavam de fome e começaram imediatamente a perseguir os trenós.

Quando as renas notaram a proximidade dos lobos, empreenderam uma corrida frenética, galopando encosta abaixo numa velocidade tal, que os trenós se balançavam para a direita e para a esquerda, e saltavam no ar, quando batiam nos montículos de neve.

O lapão e sua mulher estavam acostumados e aguentaram firmes nos seus trenós. Mas a neve os cegava, e numa das sacudidelas a criança escapuliu dos braços da mãe e caiu na neve.

Gritando, a pobre mãe tentou em vão deter a carreira da rena; o pobre animal sabia que os lobos os estavam alcançando; e por isso, levantou as orelhas e continuou no seu galope desenfreado, com tanto ardor que se ouvia claramente o seco rangido dos ossos de suas patas.

Logo as renas e os trenós se afastaram do lugar onde a criança havia caído.

No mesmo instante os lobos cercaram a menina.

Ela os contemplou, sem mover-se nem chorar. O límpido olhar da inocência tem um poder mágico, pois os lobos famintos, em vez de saltar sobre a menina e devorá-la, não lhe fizeram o menor dano. Por um momento permaneceram à sua volta, como se assustados, contemplando-a. Depois reencetaram a sua frenética corrida, seguindo o rasto das renas.

A menina ficou ali, sozinha naquela noite de inverno, na vasta extensão deserta e nevada. Não podia mover-se, embrulhada nas peles. Levantou os olhinhos e contemplou as estrelas, e as estrelas pareciam observá-la; entre elas e a menina fez-se um laço de amizade eterna.

Os astros distantes, inumeráveis e grandiosos, pareciam compadecer-se daquela criança da Terra, estendida ali, indefesa, sobre a neve; e tanto e tanto olharam a menina, e a menina passou tanto tempo a contemplá-los, que aquele brilho celeste acabou se fixando em seus olhos.

Apesar disso, a pequenina teria morrido de frio e de fome, se Deus não lhe tivesse enviado um viajante que ia passando por aquele caminho.

Era um camponês que vivia perto de um povoado vizinho. Ia voltando da povoação norueguesa de Vadso, e levava sal e farinha para celebrar as festas do Natal.

Vendo a menina abandonada, a recolheu e a colocou no seu trenó.

Quando chegou à casa, os sinos badalavam para a missa matinal. Ele entrou, e mostrando o embrulho à sua mulher, lhe disse:

– Trago-lhe um presente de Natal, Isabel – e falando assim, sacudiu a neve de seus cabelos castanhos.

Explicou como havia encontrado a criança.

A mulher segurou a criaturinha, a desembrulhou, e lhe deu para beber leite quente.

– É Deus que a envia à nossa casa, pobrezinha – disse-lhe. – Como olha para nós! Se você é órfã, Simão Sorsa será seu pai, e eu sua mãe. Simum, Palte e Matte ficarão contentes, por terem uma irmãzinha. Mas eu gostaria de saber se ela foi batizada!

– É pouco provável – disse o marido. – Os lapões têm de percorrer um longo trajeto para chegaram à igreja, e em consequência disso, esperam, em geral, reunir bom número de filhos para batizar todos eles de uma só vez. Não é raro se ver os próprios meninos que se vão batizar dirigindo os trenós. Como hoje é Natal, é melhor a levarmos agora à igreja e torná-la cristã.

A mulher achou que era uma boa ideia, e a menina foi batizada com o nome de Isabel, que era o da sua mãe adotiva.

O sacerdote se admirou de seus olhos brilharem como estrelas e disse, brincando:

– Devia chamar-se Olhos de Estrela.

A mulher do camponês não gostou disso; mas o marido, que havia feito a mesma observação do sacerdote, disse que o segundo nome lhe parecia tão bom quando o que sua mulher havia sugerido.

– Não meta semelhante coisa na cabeça! – exclamou a mulher. – Esta criança é lapona, e os lapões às vezes são bruxos! Trate de não misturar sortilégios no nome dela! Simum, Palte e Matte têm olhos tão bonitos quanto os dela, com a única diferença de que são cinzentos e os dela são negros!

Simão Sorsa, que não queria contrariar a esposa, fingiu esquecer o assunto. Mas a frase do sacerdote logo se espalhou por todos os lados, e todos os vizinhos começaram a dizer “A Menina dos Olhos de Estrela”, quando se referiam à criança encontrada por Simão Sorsa.

A menina foi crescendo ao lado de seus três irmãos adotivos, e enquanto eles eram fortes e vigorosos, ela era franzina e esbelta. Tinha olhos e cabelos negros, como a maioria dos lapões; mas, se as crianças da Lapônia quase sempre são rebeldes e teimosas, Olhos de Estrela era pacífica e silenciosa. Vivia tranquila e feliz, o que não impedia que de quando em quando os garotos lhe puxassem os cabelos.

Simão Sorsa e sua mulher amavam igualmente as quatro crianças; tudo corria bem, e ninguém se apresentou para reclamar a pequena. Que podiam pensar o lapão e sua mulher, senão que a filha, ao cair do trenó, teria sido devorada pelos lobos?

Isabelita não tinha ainda três anos, quando sua mãe adotiva começou a se dar conta de uma coisa extraordinária que não conseguia compreender. Os olhos da menina tinham um poder ao qual ninguém podia resistir.

Ela jamais contrariava os outros, nem se zangava quando os irmãozinhos a aborreciam; não fazia mais do que fixá-los, e no mesmo instante eles faziam tudo para lhe serem agradáveis.

O gato preto a temia e não se atrevia a fitá-la com seus olhos reluzentes; o cachorro de Matte parava de ladrar quando ela o olhava. A mãe, às vezes, julgava ver brilhar na obscuridade os olhos da menina.

Num dia de tempestade, a viu sair para o pórtico e, quase no mesmo instante, como se fosse efeito da sua presença, a tormenta se apaziguou.

A mãe adotiva, apesar da ternura que sentia pela menina, estava um pouco inquieta.

– Não me olhe assim – dizia-lhe às vezes, impaciente. – Parece que quer me trespassar com os olhos!

A criança abaixava a cabeça, chorosa, não compreendendo porque a repreendiam, e magoada por ter aborrecido sua mãe.

Então esta lhe dizia, abraçando-a com carinho:

– Não chore, Isabelita. Você não tem culpa de ser lapona.

Um dia, quando estava fiando, pensava no marido, que de novo viajava. E lembrou-se de que o cavalo havia perdido uma ferradura.

Num canto do quarto, Olhos de Estrela havia montando num banco, como se montasse um cavalo. E como se falasse com o seu corcel, disse de repente:

– Mamãe pensa que você perdeu uma ferradura.

A mulher do camponês, espantada, parou de fiar e perguntou:

– Como sabe disso?

– Eu vi – respondeu a menina.

A mãe ficou angustiada, mas não deixou transparecer nada e resolveu, a partir daquele momento, vigiar a menina.

Pouco tempo depois, passou um forasteiro, durante a noite, pela casa. No dia seguinte a mulher percebeu que havia desaparecido um anel de ouro que ela havia deixado em cima da mesa. Suspeitando do forasteiro, revistou seus bolsos, mas não encontrou o anel.

Olhos de Estrela, que acabava de despertar, olhou com surpresa o desconhecido, e exclamou:

– Este homem está com um anel na boca!

Tendo-se comprovado a veracidade de suas palavras, o homem foi posto fora de casa. Daquela vez, a mulher do camponês não fez nenhum comentário. Passaram-se uns dias.

Palte apanhou a varíola, e o médico foi visitá-lo. A mãe estava com dois pescados frescos e pensou:

“Vou dar um pescado ao médico; mas creio que o pequeno para ele bastará”.

Olhos de Estrela brincava no chão, com uma bonequinha de trapo que ela imaginava estar enferma. Uma vassoura fazia o papel de médico. Olhos de Estrela, dirigindo-se à vassoura, disse:

– Qual destes dois pescados vou lhe dar? O grande ou o pequeno? Acho que o pequeno lhe bastará.

Ouvindo essas palavras, a mulher do camponês sentiu o coração traspassado por um punhal. Depois que o médico saiu, ela não pôde mais conter-se e disse à menina:

– Já vi que você é enfeitiçada! Mas saiba de uma coisa: não me olhará mais, com seus olhos de bruxa! Vai viver no porão, e uma vez por dia subirá para comer; mas aí eu lhe taparei os olhos, para que não possa ver o que se passa no coração dos outros. E ficará lá embaixo até que os espíritos maléficos a abandonem.

A mulher do camponês estava sendo muito cruel com a pobre criança que não havia feito mal a ninguém. Mas era muito supersticiosa e imaginava que todos os lapões eram feiticeiros. Por esse motivo trancou Olhos de Estrela no porão, embora lhe desse roupas quentes e uma boa cama.

Mas faltava à menina a luz do dia, bem como a liberdade, a companhia e o afeto dos seus.

Certamente não era divertido ficar às escuras no porão, mas também ela não se aborrecia muito. Ali encontrou companhia: um velho tronco, uma talha rachada, uma roca com pé e uma garrafa sem gargalo.

O tronco era o papai; a talha, a mamãe; a roca, seu pé e a garrafa, seus irmãozinhos. E esses objetos, fora o tronco, ficavam num caixote vazio.

Olhos de Estrela cantava canções para eles, e os ratinhos escutavam.

A mulher do camponês tinha uma vizinha que se chamava Murra. Na véspera de Natal as duas mulheres estavam em casa do camponês, falando dos feitiços dos lapões.

A mulher do camponês fazia meia, Simum brincava com umas moedas, Palte fazia em pedaços um tijolo, e Matte tinha atado um cordel à pata do gato.

Então se ouviu a voz de Olhos de Estrela, cantando:

“Minha mãe faz meia

Simum conta moedas,

Palte parte um tijolo,

Mate amarrou a pata do gato,

e agora, boa noite para todos,

a família vai para a cama.”

– Quem está cantando? – perguntou Murra.

– Isabelita, fazendo dormir os brinquedos dela – respondeu a mulher do camponês.

– Mas como pode ela ver o que fazemos? – disse Murra.

– Parece mentira! – respondeu a mulher do camponês. – Essa menina me assusta, está enfeitiçada!

– Tape-lhe os olhos com sete vendas de lã e ponha sete cortinas em cima das frestas da entrada do porão… Assim ela não poderá ver nada – aconselhou a malvada vizinha.

– Vou experimentar – disse a mulher do camponês.

Descendo ao porão, ela atou as sete vendas aos olhos da menina e colocou sete mantas no chão, por cima do orifício da entrada.

Ao anoitecer, quando as estrelas brilhavam no céu e a aurora boreal resplandecia com mil fulgores, ouviu de novo a voz de Olhos de Estrela, cantando:

“Olha as estrelas:
brilham aos milhares.
Olha aquelas chamas vermelhas
subindo no horizonte.
As estrelas me sorriem!
Minhas estrelas queridas,
me trazem a mensagem do Natal.”

– Escute – exclamou Murra. – Agora ela vê as estrelas e o fulgor da aurora boreal! Nunca vi uma criatura assim!

– Não é possível – disse a mulher do camponês.

Desceu ao porão e perguntou à pequena:

– Você está vendo as estrelas no céu?

– Sim, e são muitas! – respondeu a pequena. Está tudo tão claro e tão brilhante! O Natal está perto!

A mulher do camponês contou tudo à vizinha.

Esta disse:

– A única maneira de acabar com essas bruxarias é cavar no porão um poço de dois metros de profundidade e enterrar nele a menina, enchendo-o de areia. Assim terminarão os feitiços.

– Não, isso não farei nunca – replicou a mulher do camponês. – Meu marido se afligiria muito, porque tem verdadeiro afeto por ela.

– Então – disse a vizinha – dê-me a pequena e eu a mandarei de volta para a Lapônia.

– Contanto que não lhe faça mal – objetou a mulher do camponês.

– Que mal hei de lhe fazer? – disse a maligna mulher. – Ela voltará para o lugar de onde veio!

Pegou Olhos de Estrela, cobriu-a com uma velha pele de rena, e a carregou na direção da montanha. Quando chegaram à grande planície nevada, ela deixou a menina, dizendo:

– … foi encontrada na neve e à neve a devolvo. Fiz o que prometi.

Sentada sobre a neve, Olhos de Estrela contemplava as estrelas. Era véspera de natal, como três anos antes; e de novo milhares e milhares de estrelas com sua luz trêmula contemplavam compadecidas a inocente criatura.

A luz delas resplandecia em seus olhos e penetrava em seu coração tão puro, onde não encontrava mais do que bondade e amor. Seus olhos adquiriram um brilho cada vez maior; seu olhar foi penetrando mais e mais distante, até chegar ao véu que ocultava o trono do Eterno, e contemplaram os milhões de anjos, celestiais mensageiros de paz e amor entre Deus e os homens.

A noite, tão clara e serena, estava quieta e cheia de muda admiração. Os raios luminosos da aurora boreal cercavam a cabecinha da menina, como para exaltar nela a glória de Deus.

No dia de Natal, ao amanhecer, quando as crianças ainda dormiam, Simão Sorsa voltou de sua viagem. Depois de ter abraçado sua mulher, perguntou pelos filhos.

A mulher explicou que Palte havia estado doente, mas que já estava bom, e que Simum e Matte estavam gordinhos como uns leitões.

– Como vai Olhos de Estrela? – perguntou o camponês.

– Vai bem – respondeu sua mulher, com medo do marido.

– Devemos ser bem carinhosos com ela – disse ele. – Esta noite eu tive um sonho, quando dormia no trenó. Parecia-me que uma estrela havia caído em cima de mim, e me dizia: “Apanha-me e cuida de mim, pois eu serei uma benção para ti e para os teus.” Mas, quando estendi a mão para pegá-la, a estrela havia desaparecido. Quando acordei, comecei a pensar nos benefícios que temos recebido de Deus em todos os nossos empreendimentos, depois que recolhemos Olhos de Estrela. Antes, tudo nos corria mal: éramos pobres e estávamos doentes, as colheitas se perdiam os ursos nos carregavam as vacas e os lobos as ovelhas. Agora tudo vai bem, porque Deus abençoa os que possuem um coração generoso, e seus anjos velam com especial cuidado pelas criaturas inocentes.

Escutando essas palavras, a mulher do camponês sentiu o coração bater com muita força, mas não se atreveu a dizer nada.

As crianças acabavam de despertar; o pai as estreitou contra o coração e ficou muito contente por vê-las tão boas e tão fortes. Brincou um pouco com elas, as fez saltar em seus joelhos; depois perguntou de novo onde estava a pequena Olhos de Estrela.

Simum respondeu:

– Mamãe “trancou ela” no porão.

Palte acrescentou:

– Mamãe pôs sete vendas de lã nos olhos dela e sete mantas no buraco da entrada para o porão.

Finalmente, Matte disse:

– Mamãe “entregou ela” a Murra, e Murra a levou para muito longe.

Ouvindo essas palavras, Simão Sorsa ficou vermelho de cólera.

A mulher, branca como um lençol, mal teve ânimo para murmurar:

– Era uma lapona enfeitiçada!

Simão não respondeu. Mas, apesar do seu cansaço, foi à estrebaria e atrelou de novo o cavalo ao trenó. Primeiro passou pela casa de Murra e, tendo-a feito subir para o trenó, obrigou-a a guiá-lo até o lugar onde ela havia abandonada a meninazinha.

Quando chegaram à montanha, desceram do trenó e de esquis foram contornando os abismos, até o lugar onde Murra havia deixado Olhos de Estrela.

Via-se ainda uma pequena cova na neve e, em volta, o rasto de um esqui.

Mas Olhos de Estrela já havia desaparecido.

Depois de a terem procurado muito tempo, voltaram para casa. Simão Sorsa ia na frente, nos esquis; a mulher o seguia de perto. O camponês, que deslizava veloz sobre os esquis encosta abaixo, voltou a cabeça para ver se Murra o seguia e, cheio de espantou, viu que uma alcateia de lobos se lançava contra ela.

Tentou auxiliá-la, mas a ladeira era tão íngreme que, quando chegou lá em cima, já era muito tarde: os lobos tinham devorado Murra.

Retornou sobre seus passos; muito triste, voltou para casa, onde chegou quando os sinos tocavam para a missa matinal.

A mulher do camponês, cheia de remorsos, não se havia atrevido a ir à igreja rezar. Pela manhã, quando foi levar para o pasto os cordeiros, verificou, com horror, que todos tinham sido comidos pelos lobos.

– É nosso castigo que está começando. – explicou Simão Sorsa. – Vamos à igreja. Agora devemos ir mais do que nunca, porque temos de pedir perdão a Deus por tão grave pecado.

Nunca ninguém soube o que foi feito de Olhos de Estrela. O sulco dos esquis sobre a neve, perto do lugar onde ela foi deixada, fazia supor que algum caminhante guiado por um anjo teria encontrado a menina, levando-a para sua casa.

Acreditamos que seja assim. Acreditamos que Olhos de Estrela tenha encontrado um novo lar, onde tenha sido recebida e tratada com muito carinho e sobre o qual ela tenha atraído toda sorte de bênçãos do céu.

Ali continua ela vendo o que os outros não veem. Sim, ela vê através das paredes, através dos corações dos homens e através da abóbada do céu, mais além das estrelas, até a mansão dos bem-aventurados.

Que há de maravilhoso nisso?

Não existem seres que podem ler os pensamentos alheios?

Seres puros, bons e piedosos, que animados de uma fé profunda, podem alcançar essas alturas, até o véu que cobre o esplendor dos bem-aventurados?

Mais além já não poderiam ver, pois atrás desse véu há muito mais ainda: há o que olho nenhum viu, nem ouvido algum ouviu.

Mas já é um dom imenso o poder ver além das fronteiras terrenas, se bem que na verdade desse dom muito poucos sejam merecedores.

Em outros tempos julgava-se que o destino dos homens dependia das estrelas. Agora cremos que ele depende da vontade de Deus. No entanto, as estrelas não perderam seu poder maravilhoso. Se as contemplarmos com espírito de recolhimento, as veremos como se fizessem parte do manto de Deus, criador do Universo sem limites.

Através da noite terrena, brilha sempre no céu um fragmento de eternidade, e só de nós depende que seu reflexo permaneça em nossos olhos e em nosso espírito.

Foi assim que ele permaneceu no cândido olhar de Olhos de Estrela, porque ela era uma criatura pura, desprendida das coisas terrenas.

Em nós o Divino se obscurece frequentemente, devido aos pensamentos e aos desejos que nos fazem abaixar os olhos para as coisas terrenas.

Ninguém sabe onde está agora Olhos de Estrela. Ainda deve ser muito pequenina, pois não faz muito tempo que desapareceu. Portanto, olhem com atenção todas as meninas que tiverem olhos puros e brilhantes; talvez uma delas seja Olhos de Estrela.

Seus cabelos eram negros e os olhos também negros; mas não imaginem nunca, por isso, que ela não se possa encontrar no meio das crianças rosadas e de olhos azuis, pois pode ter mudado!

Reparem apenas se ela pode acalmar a tempestade, se pode ler o pensamento de vocês e adivinhar seus segredos através de suas vendas de lã. Se for capaz de tudo isso, trata-se, com toda a segurança, de Olhos de Estrela.

Mas não contem isso a ela, pois já faz muito tempo que esqueceu os sofrimentos passados e maldade dos homens.

Oh, pequena Olhos de Estrela! Vi você um dia; não direi onde, mas vi. Você leu meu pensamento e me abraçou afetuosamente, porque compreendeu que eu a amava.

Quem não a estimaria, angelical criatura, que carrega nos olhos claros o reflexo da Eternidade!

Extraído de: Os mais belos contos de fadas noruegueses e lapões. Editora Vecchi. Tradução de Climenez Ruiz.
Gravura de Charles Whymper. Fonte: Wikimedia Commons

*

Para ampliar o vocabulário:

Estorvar

Raios amortecidos

Frenético

Reencetar

Compadecer-se

Fitar

Apaziguar

A aurora boreal resplandecia com mil fulgores

A noite estava quieta e cheia de muda admiração

A abóbada do céu

2 thoughts on “[Conto de Natal] Olhos de Estrela

  1. Muito bonito o conto, Beatriz. Muito longo, mas não para quem se dispõe a sentar-se ao lado da lareira ou do fogão a lenha e buscar repouso e felicidade nas belas histórias tradicionais.

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