[Poesia inglesa traduzida] “Ulisses” de Tennyson

Neste celebérrimo poema em versos brancos, o poeta inglês Alfred Tennyson (1809-1892) nos mostra o heroi da Odisseia já idoso, mas decidido a viver a vida plenamente, até o fim.

Na época, o poema foi considerado um incentivo às conquistas do Império Britânico que, como Ulisses, vivia já seu declínio. Fora desse contexto histórico, permanece um belo discurso sobre a velhice e sobre aquela sede de conhecimento que nem a proximidade da morte pode extinguir.

Os versos finais “Empenhar-se, buscar, encontrar e não se render” estão gravados sobre o túmulo de Robert Falcon Scott, explorador inglês morto em 1912 durante uma malograda expedição ao Polo Sul. Os mesmos versos aparecem no filme de James Bond Skyfall, recitados por Judi Dench no papel de “M”.

Veleiro ao pôr-do-sol.
“Firme é meu propósito de velejar além do ocaso…”

Ulisses

Pouco aproveita que um rei ocioso,
Junto a quieta lareira, em meio a penhascos estéreis,
Com uma esposa igualmente idosa, eu meça e dê
Leis impróprias para uma raça selvagem
Que armazena e dorme e se alimenta e não me conhece.
Não posso cessar de viajar; beberei
A vida até a lia. Sempre vivi alegrias
Grandes, grandes sofrimentos, tanto com aqueles
Que me amavam, como sozinho; em terra firme, e quando
Tocado pelo vento, à deriva, as Híades chuvosas
Agitavam o mar turvo. Tornei-me renomado
Pois sempre vagueando com ávido coração
Muito vi e conheci – cidades dos homens
E costumes, lugares, conselhos e governos,
Eu mesmo não o menor, mas sim honrado de todos –
E bebi o deleite da batalha com meus companheiros
Longe, nas planícies ressoantes da ventosa Tróia.
Eu sou parte de tudo o que encontrei;
Mas toda experiência é uma arcada através da qual
Se vislumbra aquele mundo jamais trilhado cuja orla desvanece
Sempre, sempre, conforme avanço.
Quão insípido é pausar, pôr um termo,
Enferrujar sem lustro, não brilhar com uso!
Como se respirar fosse viver! Vida sobre vida
Fôra pouco, e de uma só
Pouco me resta; mas cada hora é poupada
Daquele silêncio eterno, algo mais,
Uma portadora de novas coisas; e desprezível fôra
Por coisa de três sois guardar e esconder a mim
E a este espírito encanecido ansiando do desejo
De seguir o conhecimento como estrela que descamba,
Além do extremo confim do pensamento humano.
            Este é meu filho, meu Telêmaco,
A quem deixo o cetro e a ilha –
Amado por mim, discernente para realizar
Este labor, pela lenta prudência tornar manso
Um povo áspero, e em passos suaves
Submetê-los ao útil e ao bom.
Sem culpa alguma é ele, centrado no âmbito
Dos deveres comuns, certo para não falhar
Nas funções de bondade e oferecer
Adoração condizente aos deuses de meu lar,
Quando eu me for. Ele faz seu trabalho, eu, o meu.

Ali jaz o porto; o barco infla sua vela;
Ali negrejam os escuros, vastos mares. Meus marinheiros,
Almas que labutaram e trabalharam e pensaram comigo –
Que sempre com alegre acolhida receberam
O trovão e o sol, e mostraram
Corações livres, livres frontes – vós e eu somos velhos;
A velhice tem ainda sua honra e sua labuta.
A morte encerra tudo; mas algo antes do fim,
Algum trabalho de nobre cunho pode ainda ser feito,
Não indigno de homens que lutaram com Deuses.
A luz põe-se a tremeluzir das rochas;
O longo dia mingua; a lenta lua sobe; o abismo
Geme ao redor com muitas vozes. Vinde, amigos meus,
Não é tarde demais para buscar um novo mundo.
Desatracai,  e sentados em boa ordem golpeai
A esteira sonorosa; pois firme é meu propósito
De velejar além do ocaso, e do banho
De todas estrelas do ocidente, até que eu morra.
Pode ser que as voragens nos engulam;
Pode ser que toquemos as Ilhas Afortunadas,
E vejamos o grande Aquiles, que conhecíamos.
Ainda que muito tenha sido tomado, muito permanece; e ainda
Que não mais sejamos aquela força que em dias de antanho
Movia terra e céu, aquilo que somos, somos –
Uma mesma têmpera de heroicos corações,
Enfraquecidos pelo tempo e o destino, mas fortes na vontade
De empenhar-se, de buscar, de encontrar e de não se render.

Alfred Tennyson

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